Primeiramente gostaria de agradecer o Ricardo da Costa, professor de História Medieval da UFES, que nos enviou esse texto por uma lista de e-mail do Yahoo. É um texto do Carlo Ginzburg. Apreciem!
Carlo Ginzburg contra o ceticismo e o relativismo em História1. Os gregos contam que Teseu recebeu de presente de Ariadne um fio.
Com esse fio Teseu se orientou no labirinto, encontrou o Minotauro e
o matou. Dos rastros que Teseu deixou ao vagar pelo labirinto, o mito
não fala. O que une os capítulos deste livro, dedicados a temas muito
heterogêneos, é a relação entre o fio – o fio do relato, que ajuda a
nos orientarmos no labirinto da realidade – e os rastros. Há muito
tempo trabalho como historiador: procuro contar, servindo-me dos
rastros, histórias verdadeiras (que às vezes têm como objeto o
falso). Hoje nenhum dos termos dessa definição
(“contar”, “rastros”, “histórias”, “verdadeiras” , “falso”) me parece
algo óbvio. Quando comecei a aprender o ofício, pelo final dos anos
50, a atitude que prevalecia na academia era completamente diferente.
Escrever, contar a história não era considerado um tema de reflexão
sério. Lembro-me de uma só exceção: Arsenio Frugoni, que em seus
seminários de Pisa voltava de vez em quando, como entendi mais tarde,
ao tema do caráter subjetivo das fontes narrativas com que se
deparara poucos anos antes em Arnaldo da Brescia. Frugoni me propôs
(eu estava no segundo ano da universidade) preparar um colóquio sobre
os Anais; comecei a ler Marc Bloch. Em Métier d’historien [Apologia
da história ou o ofício do historiador] , topei com uma página que
muito mais tarde me ajudou, sem que eu tivesse plena percepção, a
refletir sobre os rastros. Mas naqueles anos os historiadores
tampouco falavam de rastros.
2. Refiro-me a esse clima para explicar a mim mesmo a euforia
irracional que senti quando escrevi as primeiras frases de meu
primeiro livro. Parecia-me que os documentos com que estava
trabalhando (processos da Inquisição) abriam um leque muito amplo de
possibilidades narrativas. A tendência a fazer experiências nessa
direção, sem dúvida também solicitada por minhas origens familiares,
encontrava nas fontes um estímulo e um limite. Mas eu estava
convencido (e ainda estou) de que entre os testemunhos, seja os
narrativos, seja os não narrativos, e a realidade testemunhada existe
uma relação que deve ser repetidamente analisada. A eventualidade de
que alguém pudesse duvidar radicalmente dessa relação nem sequer me
passava pela cabeça.
Tudo isso faz parte da pré-história deste livro. Na segunda metade
dos anos 60 o clima começou a mudar. Algum tempo depois, anunciou-se
com grande clamor que os historiadores escreviam. De início, creio
que fiquei indiferente às implicações hiperconstrutivista s (na
verdade, céticas) dessa revelação. Prova disso é um trecho do
ensaio “Sinais” (1979), que se apóia na relação entre decifração dos
rastros e narração, sem fazer alusão a eventuais objeções céticas. A
guinada, para mim, só ocorreu quando, graças a um ensaio de Arnaldo
Momigliano, percebi as implicações morais e políticas, além das
cognitivas, da tese que na sua essência suprimia a distinção entre
narrações históricas e narrações ficcionais. O posfácio que escrevi
(1984) para Il ritorno di Martin Guerre [O retorno de Martin Guerre],
de Natalie Davis (cf. Apêndice), registra essa – pensando bem,
tardia – consciência.
Quem desejar poderá começar esse livro por aquelas páginas. Ali
encontrará, esboçado sumariamente, um programa de pesquisa e seu
objetivo polêmico. Mais exatamente, o contrário: a pars destruens
vinha primeiro, como talvez sempre aconteça. Contra a tendência do
ceticismo pós-moderno de eliminar os limites entre narrações de
ficcionais e narrações históricas, em nome do elemento construtivo
que é comum a ambas, eu propunha considerar a relação entre umas e
outras como uma contenda pela representação da realidade. Mas, em vez
de uma guerra de trincheira, eu levantava a hipótese de um conflito
feito de desafios, empréstimos recíprocos, hibridismos. Com as coisas
nesses termos, não era possível combater o neoceticismo repetindo
velhas certezas. Era preciso aprender com o inimigo para combatê-lo
de modo mais eficaz.
São essas as hipóteses que orientaram, ao longo de vinte anos, as
pesquisas que confluem neste livro. O significado do desafio lançado
pelas “más coisas novas”, como dizia Brecht (ver cap. 1), e a escolha
do terreno onde enfrentá-lo só ficaram claros para mim
paulatinamente. Hoje os pós-modernistas parecem menos rumorosos,
menos seguros de si; talvez os ventos da moda já soprem de outro
lugar. Pouco importa. As dificuldades surgidas dessa discussão, e as
tentativas de resolvê-las, permanecem.
3. O ataque cético à cientificidade das narrações históricas insistiu
em seu caráter subjetivo, que as assimilaria às narrações ficcionais.
As narrações históricas não falariam da realidade, mas sim de quem as
construiu. Inútil objetar que um elemento construtivo está presente
em certa medida até nas chamadas ciências “duras”: mesmo estas foram
objeto de uma crítica análoga àquela já lembrada. Falemos, então, de
historiografia. Que ela tenha um componente subjetivo, é sabido; mas
as conclusões radicais que os céticos tiraram desse dado concreto não
levaram em conta uma mudança fundamental mencionada por Bloch nas
suas reflexões metodológicas póstumas. “Hoje [1942-3]…, até mesmo
nos testemunhos mais resolutamente voluntários”, escrevia
Bloch, “aquilo que o texto nos diz já não constitui o objeto
preferido de nossa atenção.”
As Mémoires de Saint-Simon ou as vidas dos santos da alta Idade Média
nos interessam (continuava Bloch) não tanto por suas referências aos
dados concretos, volta e meia inventados, mas pela luz que lançam
sobre a mentalidade de quem escreveu esses textos. “Na nossa
inevitável subordinação ao passado, nós nos emancipamos, ao menos no
sentido de que, embora permanecendo condenados a conhecê-lo
exclusivamente com base em seus rastros, conseguimos, todavia, saber
bem mais a seu respeito do que ele resolvera nos dar a conhecer.” E
concluía: “Olhando bem, trata-se de uma grande revanche da
inteligência sobre o mero dado concreto”.
Em outro trecho de Ofício de historiador Bloch respondia às dúvidas
dos que lamentavam a impossibilidade de controlar fatos históricos
separadamente: por exemplo, as circunstâncias em que se deram os
fuzilamentos que teriam desencadeado a revolução de 1848, em Paris.
Trata-se, observava Bloch, de um ceticismo que não toca naquilo que
existe por baixo do acontecimento, ou seja, as mentalidades, as
técnicas, a sociedade, a economia: “Aquilo que há de mais profundo na
história poderia ser também aquilo que há de mais seguro”. Contra o
ceticismo positivista que punha em dúvida o caráter fidedigno deste
ou daquele documento, Bloch fazia valer, de um lado, os testemunhos
involuntários; de outro, a possibilidade de isolar nos testemunhos
voluntários um núcleo involuntário, portanto mais profundo.
Contra o ceticismo radicalmente antipositivista que ataca o caráter
referencial dos textos como tais, pode-se usar uma argumentação em
certos aspectos semelhante àquela lembrada por Bloch. Escavando os
meandros dos textos, contra as intenções de quem os produziu, podemos
fazer emergir vozes incontroladas: por exemplo, as das mulheres ou
dos homens que, nos processos de bruxaria, de fato escapavam aos
estereótipos sugeridos pelos juízes (cap. 14). Nos romances medievais
podemos detectar testemunhos históricos involuntários sobre usos e
costumes, isolando na ficção fragmentos de verdade: uma descoberta
que hoje nos parece quase banal, mas que tinha um aspecto paradoxal
quando, em meados do século xvii, em Paris, foi formulada
explicitamente pela primeira vez (cap. 4). Era uma estratégia de
leitura não muito diferente daquela esboçada por Bloch a respeito da
vida dos santos da alta Idade Média.
A pista aberta por essa posição, ao mesmo tempo distanciada e
participativa, com relação à literatura do passado teve, a longo
prazo, êxitos imprevisíveis. Nesse caminho encontramos, três séculos
depois, um grande estudioso (Erich Auerbach) que analisa trechos de
Voltaire e Stendhal, lendo respectivamente as Cartas filosóficas e O
vermelho e o negro, não como documentos históricos mas como textos
entranhados de história. A interpretação é infinita, embora seus
conteúdos não sejam ilimitados: as interpretações de Auerbach podem
ser lidas numa perspectiva diferente das intenções e da perspectiva
de seu autor, utilizando-se os rastros por ele deixados mais ou menos
involuntariamente (cap. 6 e 9). A ficção, alimentada pela história,
torna-se matéria de reflexão histórica, ou ficcional, e assim por
diante. Essa trama imprevisível pode comprimir-se num nó ou num nome
(cap. 8).
Ler os testemunhos históricos a contrapelo, como Walter Benjamin
sugeria, contra as intenções de quem os produziu – embora,
naturalmente, deva-se levar em conta essas intenções – significa
supor que todo texto inclui elementos incontrolados. Isso também vale
para os textos literários que pretendem se constituir numa realidade
autônoma. Até neles se insinua algo de opaco, comparável às
percepções que o olhar registra sem entender, como o olho impassível
da máquina fotográfica: um tema que Kracauer retomou de Proust, que
por sua vez reelaborava uma passagem de Saint-Simon (cap. 12). Essas
zonas opacas são alguns dos rastros que um texto (qualquer texto)
deixa atrás de si. Encontrei-os quando tentei refletir sobre minha
própria pesquisa, em duas experiências sugeridas pela distância
temporal (e, num caso, também espacial) (cap. 13 e 15).
4. Fazer um inventário das formas assumidas pela ficção a serviço da
verdade seria obviamente impossível. A generosidade humana e
intelectual que inspirou a Montaigne o ensaio sobre os canibais
brasileiros fora alimentada pelo gosto maneirista do grotesco e do
bizarro (cap. 3). O tênue fio narrativo de Voyage du jeune
Anarcharsis en Grèce [Viagem do jovem Anacarse à Grécia] permitiu a
Barthélémy organizar uma enorme massa de dados sobre a Antigüidade,
tornando-os acessíveis, durante um século, a um público vastíssimo,
espalhado por toda a Europa (cap. 7). Montaigne foi considerado uma
exceção, Barthélémy, no máximo, uma anomalia. Mas ambos remetem a uma
escolha que modelou, sem que eu percebesse, grande parte da estrutura
deste livro.
Tratando-se de um campo repleto de lugares-comuns e generalidades, a
relação entre narrações históricas e narrações ficcionais devia ser
enfrentada da maneira mais concreta possível, por meio de uma série
de exemplos. Encaixa-se nessa ótica o cap. 5, que pretende
reconstituir “não a exceção, mas a regra”. Trata-se, porém,
justamente de uma exceção. Retrospectivamente percebi que a maioria
dos temas que eu enfrentara não eram ilustrações ou exemplos
referidos a uma norma preexistente, mas quase: histórias em
miniatura, que, segundo a definição de André Jolles, formulam uma
pergunta sem fornecer a resposta, assinalando uma dificuldade não
resolvida.
Quando comecei a estudar os testemunhos que falam de um judeu
sobrevivente, única testemunha do extermínio da própria comunidade,
pensava que eles mostrariam a insustentabilidade da posição dos
céticos, que na verdade assimilam narrações de ficção e narrações
históricas. Se uma narração se apóia em um único documento, como é
possível deixar de fazer perguntas sobre sua autenticidade (cap. 11)?
Quase no mesmo momento me vi formulando idêntica pergunta a respeito
de um documento do século v que conta um caso precoce de hostilidade
entre cristãos e judeus: a carta do bispo Severo de Minorca (cap. 2).
Aqui, o unus testis, a única testemunha sobrevivente, é um documento,
não um indivíduo, como acontece, inversamente, nos escritos jurídicos
medievais, que refletiam sobre as características de uma comunidade
(universitas) graças ao caso fictício do único sobrevivente. Aquilo
que era apresentado implicitamente como uma experiência mental, um
exemplum fictum cogitado pela casuística, tinha um dramático
equivalente na realidade.
5. Da profusão de relações entre ficção e realidade, vimos surgir um
terceiro termo: o falso, o não autêntico – o fictício que se faz
passar por verdadeiro. É um tema que deixa os céticos em situação
incômoda, pois implica a realidade: essa realidade externa que nem
sequer as aspas conseguem exorcizar (cap. 11). Naturalmente, depois
de Marc Bloch (Os reis taumaturgos) e Georges Lefèbvre (O grande medo
de 1789), ninguém pensará que é inútil estudar falsas lendas, falsos
acontecimentos, falsos documentos: mas uma tomada de posição
preliminar sobre sua falsidade ou autenticidade é sempre
indispensável. Sobre esse ponto, e em relação aos famigerados
Protocolos anti-semitas (cap. 10), não tenho nada a acrescentar.
Limitei-me a ler, um após o outro, os falsos Protocolos e sua fonte
principal, o diálogo imaginário de Maurice Joly. Desse cotejo também
afloraram, além de muitas péssimas coisas velhas, certas “más coisas
novas”; verdades desagradáveis sobre as quais vale a pena refletir.
Os historiadores, escreveu Aristóteles (Poética, 51b), falam do que
foi (do verdadeiro), os poetas, daquilo que poderia ter sido (do
possível). Mas, naturalmente, o verdadeiro é um ponto de chegada, não
um ponto de partida. Os historiadores (e, de outra maneira, também os
poetas) têm como ofício alguma coisa que é parte da vida de todos:
destrinchar o entrelaçamento de verdadeiro, falso e fictício que é a
trama do nosso estar no mundo.
Bolonha, dezembro de 2005
GINZBURG, Carlo. O fio e os rastros – verdadeiro, falso, fictício.
São Paulo: Cia. das Letras, 2007, Introdução.