Contra o ceticismo e o relativismo em História Sexta-Feira, Set 14 2007 

Primeiramente gostaria de agradecer o Ricardo da Costa, professor de História Medieval da UFES, que nos enviou esse texto por uma lista de e-mail do Yahoo. É um texto do Carlo Ginzburg. Apreciem!

Carlo Ginzburg contra o ceticismo e o relativismo em História1. Os gregos contam que Teseu recebeu de presente de Ariadne um fio.
Com esse fio Teseu se orientou no labirinto, encontrou o Minotauro e
o matou. Dos rastros que Teseu deixou ao vagar pelo labirinto, o mito
não fala. O que une os capítulos deste livro, dedicados a temas muito
heterogêneos, é a relação entre o fio – o fio do relato, que ajuda a
nos orientarmos no labirinto da realidade – e os rastros. Há muito
tempo trabalho como historiador: procuro contar, servindo-me dos
rastros, histórias verdadeiras (que às vezes têm como objeto o
falso). Hoje nenhum dos termos dessa definição
(“contar”, “rastros”, “histórias”, “verdadeiras” , “falso”) me parece
algo óbvio. Quando comecei a aprender o ofício, pelo final dos anos
50, a atitude que prevalecia na academia era completamente diferente.

Escrever, contar a história não era considerado um tema de reflexão
sério. Lembro-me de uma só exceção: Arsenio Frugoni, que em seus
seminários de Pisa voltava de vez em quando, como entendi mais tarde,
ao tema do caráter subjetivo das fontes narrativas com que se
deparara poucos anos antes em Arnaldo da Brescia. Frugoni me propôs
(eu estava no segundo ano da universidade) preparar um colóquio sobre
os Anais; comecei a ler Marc Bloch. Em Métier d’historien [Apologia
da história ou o ofício do historiador] , topei com uma página que
muito mais tarde me ajudou, sem que eu tivesse plena percepção, a
refletir sobre os rastros. Mas naqueles anos os historiadores
tampouco falavam de rastros.

2. Refiro-me a esse clima para explicar a mim mesmo a euforia
irracional que senti quando escrevi as primeiras frases de meu
primeiro livro. Parecia-me que os documentos com que estava
trabalhando (processos da Inquisição) abriam um leque muito amplo de
possibilidades narrativas. A tendência a fazer experiências nessa
direção, sem dúvida também solicitada por minhas origens familiares,
encontrava nas fontes um estímulo e um limite. Mas eu estava
convencido (e ainda estou) de que entre os testemunhos, seja os
narrativos, seja os não narrativos, e a realidade testemunhada existe
uma relação que deve ser repetidamente analisada. A eventualidade de
que alguém pudesse duvidar radicalmente dessa relação nem sequer me
passava pela cabeça.

Tudo isso faz parte da pré-história deste livro. Na segunda metade
dos anos 60 o clima começou a mudar. Algum tempo depois, anunciou-se
com grande clamor que os historiadores escreviam. De início, creio
que fiquei indiferente às implicações hiperconstrutivista s (na
verdade, céticas) dessa revelação. Prova disso é um trecho do
ensaio “Sinais” (1979), que se apóia na relação entre decifração dos
rastros e narração, sem fazer alusão a eventuais objeções céticas. A
guinada, para mim, só ocorreu quando, graças a um ensaio de Arnaldo
Momigliano, percebi as implicações morais e políticas, além das
cognitivas, da tese que na sua essência suprimia a distinção entre
narrações históricas e narrações ficcionais. O posfácio que escrevi
(1984) para Il ritorno di Martin Guerre [O retorno de Martin Guerre],
de Natalie Davis (cf. Apêndice), registra essa – pensando bem,
tardia – consciência.

Quem desejar poderá começar esse livro por aquelas páginas. Ali
encontrará, esboçado sumariamente, um programa de pesquisa e seu
objetivo polêmico. Mais exatamente, o contrário: a pars destruens
vinha primeiro, como talvez sempre aconteça. Contra a tendência do
ceticismo pós-moderno de eliminar os limites entre narrações de
ficcionais e narrações históricas, em nome do elemento construtivo
que é comum a ambas, eu propunha considerar a relação entre umas e
outras como uma contenda pela representação da realidade. Mas, em vez
de uma guerra de trincheira, eu levantava a hipótese de um conflito
feito de desafios, empréstimos recíprocos, hibridismos. Com as coisas
nesses termos, não era possível combater o neoceticismo repetindo
velhas certezas. Era preciso aprender com o inimigo para combatê-lo
de modo mais eficaz.

São essas as hipóteses que orientaram, ao longo de vinte anos, as
pesquisas que confluem neste livro. O significado do desafio lançado
pelas “más coisas novas”, como dizia Brecht (ver cap. 1), e a escolha
do terreno onde enfrentá-lo só ficaram claros para mim
paulatinamente. Hoje os pós-modernistas parecem menos rumorosos,
menos seguros de si; talvez os ventos da moda já soprem de outro
lugar. Pouco importa. As dificuldades surgidas dessa discussão, e as
tentativas de resolvê-las, permanecem.

3. O ataque cético à cientificidade das narrações históricas insistiu
em seu caráter subjetivo, que as assimilaria às narrações ficcionais.
As narrações históricas não falariam da realidade, mas sim de quem as
construiu. Inútil objetar que um elemento construtivo está presente
em certa medida até nas chamadas ciências “duras”: mesmo estas foram
objeto de uma crítica análoga àquela já lembrada. Falemos, então, de
historiografia. Que ela tenha um componente subjetivo, é sabido; mas
as conclusões radicais que os céticos tiraram desse dado concreto não
levaram em conta uma mudança fundamental mencionada por Bloch nas
suas reflexões metodológicas póstumas. “Hoje [1942-3]…, até mesmo
nos testemunhos mais resolutamente voluntários”, escrevia
Bloch, “aquilo que o texto nos diz já não constitui o objeto
preferido de nossa atenção.”

As Mémoires de Saint-Simon ou as vidas dos santos da alta Idade Média
nos interessam (continuava Bloch) não tanto por suas referências aos
dados concretos, volta e meia inventados, mas pela luz que lançam
sobre a mentalidade de quem escreveu esses textos. “Na nossa
inevitável subordinação ao passado, nós nos emancipamos, ao menos no
sentido de que, embora permanecendo condenados a conhecê-lo
exclusivamente com base em seus rastros, conseguimos, todavia, saber
bem mais a seu respeito do que ele resolvera nos dar a conhecer.” E
concluía: “Olhando bem, trata-se de uma grande revanche da
inteligência sobre o mero dado concreto”.

Em outro trecho de Ofício de historiador Bloch respondia às dúvidas
dos que lamentavam a impossibilidade de controlar fatos históricos
separadamente: por exemplo, as circunstâncias em que se deram os
fuzilamentos que teriam desencadeado a revolução de 1848, em Paris.
Trata-se, observava Bloch, de um ceticismo que não toca naquilo que
existe por baixo do acontecimento, ou seja, as mentalidades, as
técnicas, a sociedade, a economia: “Aquilo que há de mais profundo na
história poderia ser também aquilo que há de mais seguro”. Contra o
ceticismo positivista que punha em dúvida o caráter fidedigno deste
ou daquele documento, Bloch fazia valer, de um lado, os testemunhos
involuntários; de outro, a possibilidade de isolar nos testemunhos
voluntários um núcleo involuntário, portanto mais profundo.

Contra o ceticismo radicalmente antipositivista que ataca o caráter
referencial dos textos como tais, pode-se usar uma argumentação em
certos aspectos semelhante àquela lembrada por Bloch. Escavando os
meandros dos textos, contra as intenções de quem os produziu, podemos
fazer emergir vozes incontroladas: por exemplo, as das mulheres ou
dos homens que, nos processos de bruxaria, de fato escapavam aos
estereótipos sugeridos pelos juízes (cap. 14). Nos romances medievais
podemos detectar testemunhos históricos involuntários sobre usos e
costumes, isolando na ficção fragmentos de verdade: uma descoberta
que hoje nos parece quase banal, mas que tinha um aspecto paradoxal
quando, em meados do século xvii, em Paris, foi formulada
explicitamente pela primeira vez (cap. 4). Era uma estratégia de
leitura não muito diferente daquela esboçada por Bloch a respeito da
vida dos santos da alta Idade Média.

A pista aberta por essa posição, ao mesmo tempo distanciada e
participativa, com relação à literatura do passado teve, a longo
prazo, êxitos imprevisíveis. Nesse caminho encontramos, três séculos
depois, um grande estudioso (Erich Auerbach) que analisa trechos de
Voltaire e Stendhal, lendo respectivamente as Cartas filosóficas e O
vermelho e o negro, não como documentos históricos mas como textos
entranhados de história. A interpretação é infinita, embora seus
conteúdos não sejam ilimitados: as interpretações de Auerbach podem
ser lidas numa perspectiva diferente das intenções e da perspectiva
de seu autor, utilizando-se os rastros por ele deixados mais ou menos
involuntariamente (cap. 6 e 9). A ficção, alimentada pela história,
torna-se matéria de reflexão histórica, ou ficcional, e assim por
diante. Essa trama imprevisível pode comprimir-se num nó ou num nome
(cap. 8).

Ler os testemunhos históricos a contrapelo, como Walter Benjamin
sugeria, contra as intenções de quem os produziu – embora,
naturalmente, deva-se levar em conta essas intenções – significa
supor que todo texto inclui elementos incontrolados. Isso também vale
para os textos literários que pretendem se constituir numa realidade
autônoma. Até neles se insinua algo de opaco, comparável às
percepções que o olhar registra sem entender, como o olho impassível
da máquina fotográfica: um tema que Kracauer retomou de Proust, que
por sua vez reelaborava uma passagem de Saint-Simon (cap. 12). Essas
zonas opacas são alguns dos rastros que um texto (qualquer texto)
deixa atrás de si. Encontrei-os quando tentei refletir sobre minha
própria pesquisa, em duas experiências sugeridas pela distância
temporal (e, num caso, também espacial) (cap. 13 e 15).

4. Fazer um inventário das formas assumidas pela ficção a serviço da
verdade seria obviamente impossível. A generosidade humana e
intelectual que inspirou a Montaigne o ensaio sobre os canibais
brasileiros fora alimentada pelo gosto maneirista do grotesco e do
bizarro (cap. 3). O tênue fio narrativo de Voyage du jeune
Anarcharsis en Grèce [Viagem do jovem Anacarse à Grécia] permitiu a
Barthélémy organizar uma enorme massa de dados sobre a Antigüidade,
tornando-os acessíveis, durante um século, a um público vastíssimo,
espalhado por toda a Europa (cap. 7). Montaigne foi considerado uma
exceção, Barthélémy, no máximo, uma anomalia. Mas ambos remetem a uma
escolha que modelou, sem que eu percebesse, grande parte da estrutura
deste livro.

Tratando-se de um campo repleto de lugares-comuns e generalidades, a
relação entre narrações históricas e narrações ficcionais devia ser
enfrentada da maneira mais concreta possível, por meio de uma série
de exemplos. Encaixa-se nessa ótica o cap. 5, que pretende
reconstituir “não a exceção, mas a regra”. Trata-se, porém,
justamente de uma exceção. Retrospectivamente percebi que a maioria
dos temas que eu enfrentara não eram ilustrações ou exemplos
referidos a uma norma preexistente, mas quase: histórias em
miniatura, que, segundo a definição de André Jolles, formulam uma
pergunta sem fornecer a resposta, assinalando uma dificuldade não
resolvida.

Quando comecei a estudar os testemunhos que falam de um judeu
sobrevivente, única testemunha do extermínio da própria comunidade,
pensava que eles mostrariam a insustentabilidade da posição dos
céticos, que na verdade assimilam narrações de ficção e narrações
históricas. Se uma narração se apóia em um único documento, como é
possível deixar de fazer perguntas sobre sua autenticidade (cap. 11)?
Quase no mesmo momento me vi formulando idêntica pergunta a respeito
de um documento do século v que conta um caso precoce de hostilidade
entre cristãos e judeus: a carta do bispo Severo de Minorca (cap. 2).
Aqui, o unus testis, a única testemunha sobrevivente, é um documento,
não um indivíduo, como acontece, inversamente, nos escritos jurídicos
medievais, que refletiam sobre as características de uma comunidade
(universitas) graças ao caso fictício do único sobrevivente. Aquilo
que era apresentado implicitamente como uma experiência mental, um
exemplum fictum cogitado pela casuística, tinha um dramático
equivalente na realidade.

5. Da profusão de relações entre ficção e realidade, vimos surgir um
terceiro termo: o falso, o não autêntico – o fictício que se faz
passar por verdadeiro. É um tema que deixa os céticos em situação
incômoda, pois implica a realidade: essa realidade externa que nem
sequer as aspas conseguem exorcizar (cap. 11). Naturalmente, depois
de Marc Bloch (Os reis taumaturgos) e Georges Lefèbvre (O grande medo
de 1789), ninguém pensará que é inútil estudar falsas lendas, falsos
acontecimentos, falsos documentos: mas uma tomada de posição
preliminar sobre sua falsidade ou autenticidade é sempre
indispensável. Sobre esse ponto, e em relação aos famigerados
Protocolos anti-semitas (cap. 10), não tenho nada a acrescentar.
Limitei-me a ler, um após o outro, os falsos Protocolos e sua fonte
principal, o diálogo imaginário de Maurice Joly. Desse cotejo também
afloraram, além de muitas péssimas coisas velhas, certas “más coisas
novas”; verdades desagradáveis sobre as quais vale a pena refletir.

Os historiadores, escreveu Aristóteles (Poética, 51b), falam do que
foi (do verdadeiro), os poetas, daquilo que poderia ter sido (do
possível). Mas, naturalmente, o verdadeiro é um ponto de chegada, não
um ponto de partida. Os historiadores (e, de outra maneira, também os
poetas) têm como ofício alguma coisa que é parte da vida de todos:
destrinchar o entrelaçamento de verdadeiro, falso e fictício que é a
trama do nosso estar no mundo.

Bolonha, dezembro de 2005

GINZBURG, Carlo. O fio e os rastros – verdadeiro, falso, fictício.
São Paulo: Cia. das Letras, 2007, Introdução.

Cartéis, monopólios e liberalismo Sexta-Feira, Set 14 2007 

    Citarei aqui uma parte do livro de Ludwig Von Mises, a respeito do liberalismo. Mises, após escrever um livro no qual refuta as bases do socialismo, nota a ausência de um outro que defenda o pensamento liberal. O livro Liberalismo é, assim, uma defesa organizada do livre mercado. Com linguagem simples e separando os assuntos em tópicos, Mises dá uma definição clara do que chamamos Liberalismo. Mas também alerta para o “roubo” do termo, realizado pelos intervencionistas de plantão. Mostra como o mundo está distante da sociedade da liberdade. Enfim, um livro para esclarecer a todos a respeito dessa “ideologia”.

Aqui postarei apenas um tópico no qual Mises debate a respeito do “problema” dos Cartéis e Monopólios, levantado por coletivistas.

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Cartéis, monopólios e liberalismo

Do Livro: Liberalismo (Ludwig Von Mises)

 

             Os adversários do liberalismo afirmam que as pré-condições necessárias para a adoção do programa liberal não mais existem no mundo contemporâneo. O liberalismo ainda era possível, quando muitas empresas de tamanho médio se viam envolvidas em viva competição em cada ramo industrial. Hoje em dia, uma vez que os trustes, cartéis e outras empresas monopolísticas detêm completo controle do mercado, o liberalismo, a bem dizer, está acabado em qualquer circunstância. Não foi a política que o destruiu, mas uma tendência inerente à inexorável evolução do sistema de livre empresa.

            A divisão do trabalho atribui função especializada a cada unidade produtiva da economia. Este processo nunca se interrompe, na medida em que continua o desenvolvimento econômico. De há muito, ultrapassamos o estágio no qual a mesma fábrica produzia todos os tipos de máquina. Hoje, uma fábrica de máquinas que não se limite, exclusivamente, à produção de certos tipos de maquinaria não tem mais condições de concorrer. Com o progresso da especialização, a área servida por um fornecedor individual deve continuar a ampliar-se. O mercado fornecido por uma fábrica têxtil, que produza apenas alguns poucos tipos de tecidos, tem de ser maior do que o mercado servido por um tecelão que tece todo tipo de pano. Sem dúvida, essa progressiva especialização da produção volta-se para o desenvolvimento de todo tipo de empresa que tenha o mundo inteiro como mercado. Se esse desenvolvimento não for obstado por medidas protecionistas e por outras medidas anticapitalistas, o resultado será que, em todo o ramo, haverá um número relativamente pequeno de firmas, ou mesmo apenas uma única firma, voltada para produzir com alto grau de especialização e para suprir todo o mundo.

            Naturalmente, estamos hoje muito longe desse estado de coisas, uma vez que a política econômica de todos os governos visa a retirar pequenas áreas da unidade da economia mundial, nas quais, sob a proteção de tarifas e outras medidas destinadas a obter resultados semelhantes, as empresas que não mais sejam capazes de responder à concorrência no livre mercado mundial, são artificialmente preservadas ou até mesmo intimadas a sê-lo. Além das considerações de política comercial, medidas desse tipo, que visam a atingir a concentração dos negócios, são defendidas com base no argumento de que somente elas têm impedido que os consumidores sejam explorados por conluios monopolísticos dos produtores.

            Para avaliarmos a validade deste argumento, suponhamos que a divisão do trabalho, entre todas as nações do mundo, já tenha alcançado o ponto em que a produção de todo artigo oferecido à venda se concentre em uma única firma, de tal modo que o consumidor na sua qualidade de comprador, esteja sempre diante de um único vendedor. Em tais circunstâncias, segundo uma doutrina econômica mal formulada, os produtores estariam em condições de manter os preços fixados no patamar mais alto possível, de modo a obter lucros exorbitantes e, daí, a piorar consideravelmente o padrão de vida dos consumidores. Não é difícil ver que essa idéia é completamente errônea. Os preços de monopólio, se não forem estabelecidos por certos atos de intervenção por parte do governo, somente poderão ser fixados, de modo duradouro, caso se exerça o controle sobre minerais e outros recursos naturais. Um monopólio isolado, numa indústria de transformação que gerasse maiores lucros do que os gerados em outras partes da economia, estimularia a formação de empresas rivais, cuja concorrência quebraria monopólios e restauraria preços e lucros à taxa comum. Os monopólios em indústria de transformação não podem, contudo, tornar-se comuns, uma vez que em todo dado nível de riqueza de uma economia, a quantidade total de capital investido e de mão-de-obra disponível, empregada na produção (e conseqüentemente, também, o montante do produto social), constitui uma dada magnitude. Em um determinado setor de produção, ou em vários, o montante de capital e de trabalho empregados poderia ser reduzido, com o intuito de aumentar o preço por unidade, e o lucro agregado do monopolista ou monopolistas poderia ser reduzido pela diminuição da produção. O capital e o trabalho daí liberados fluiriam, então, para uma outra indústria. Entretanto, se todos tentarem cortar a produção, com a finalidade de praticar preços mais altos, as indústrias imediatamente liberarão trabalho e capital que, por oferecerem-se a taxas inferiores, propiciarão forte estímulo a formação de novas empresas que, necessariamente, destruirão novamente a posição monopolística de outras empresas. A idéia de um cartel e monopólio universais da indústria de transformação é, portanto, totalmente inatingível.

            Somente se estabelecem monopólios genuínos, por meio do controle da terra ou dos recursos minerais. A idéia de que toda a terra agricultável, existente no planeta, poderia ser consolidada em um único monopólio mundial não merece maiores discussões; os monopólios dos quais trataremos aqui serão os originados de minerais úteis. Os monopólios desse tipo de fato existem, no caso de alguns poucos minerais de menor importância e é possível que, de algum modo, tentativas de monopolizar também outros minerais possam, algum dia, ser bem sucedidas. Isto significaria que os proprietários dessas minas e pedreiras obteriam delas crescentes rendas e que os consumidores limitariam o consumo e procurariam substitutos para os materiais que se tornassem mais caros. Um monopólio mundial de petróleo resultaria numa demanda crescente de energia hidroelétrica, carvão, etc. Do ponto de vista da economia mundial e sub specie aeternitatis (sob o aspecto da eternidade) isto significaria que teríamos de poupar mais do que antes, na utilização de materiais caros, que só podemos exaurir, mas nunca substituir, deixando, então, para futuras gerações uma quantidade deles maior do que a que seria utilizada, no caso de uma economia livre de monopólios.

            O bicho-papão do monopólio, que é sempre esconjurado quando se fala sobre o livre desenvolvimento da economia, não nos deve causar inquietação. Os monopólios mundiais realmente possíveis poderiam limitar-se apenas a alguns poucos itens da produção primária. Não se pode saber com facilidade se o efeito do monopólio será favorável ou desfavorável. Aos olhos daqueles que, ao tratarem dos problemas econômicos, sejam incapazes de livrar-se do sentimento de inveja, tais monopólios se mostram perniciosos, pelo simples fato de que rendem a seus proprietários lucros crescentes. Quem abordar esta questão sem preconceitos concluirá que esses monopólios levam a uma utilização mais poupadora daqueles recursos minerais que estejam à disposição do homem em quantidade um tanto limitada. Se alguém de fato inveja o lucro monopolista, poderá, sem perigo e sem ter de esperar quaisquer conseqüências danosas à economia, revertê-los aos cofres públicos, pela imposição do imposto de renda sobre as minas.

            Em contraste com esses monopólios mundiais, situam-se os monopólios nacionais e internacionais, que têm importância prática hoje em dia, precisamente, pelo fato de não se originarem de qualquer tendência evolucionista natural, da parte do sistema econômico em que agem livremente, mas são produtos de políticas econômicas antiliberais. Tentativas de garantir uma posição monopolista, no que se refere a alguns artigos, são possíveis apenas, na maioria dos casos, porque os sistemas tarifários dividiram o mercado mundial em estreitos mercados nacionais. Além disso, os únicos outros cartéis que causam alguma conseqüência são aqueles que os donos de certos recursos naturais são capazes de formar, porque os altos custos de transporte os protegem da concorrência de produtos de outras áreas, localizadas na periferia de sua área de atuação.

            No julgamento das conseqüências dos trustes, cartéis e empresas que forneçam um único artigo ao mercado, é erro fundamental falar-se de “controle” do mercado e de “preços ditados” pelo monopolista. O monopolista não exerce qualquer controle nem está em posição de ditar preço. Somente se poderia falar de controle do mercado e de preços ditados, se o artigo em questão fosse, no sentido estrito e mais literal da palavra, necessário à existência e absolutamente insubstituível por qualquer outro. Sem dúvida, isto não é válido para qualquer mercadoria. Não há qualquer bem econômico, cuja posse seja indispensável aos que estejam aptos a adquiri-lo no mercado.

            O que distingue a formação de um preço de monopólio da formação de um preço competitivo é o fato de que, sob condições muito especiais, é possível para o monopolista olher um lucro maior da venda de uma quantidade menor, por um preço maior (que se chama de preço de monopólio) do que pela venda ao preço que seria determinado pelo mercado, se um número maior de vendedores estivesse em concorrência (preço competitivo). A condição necessária para o surgimento de um preço de monopólio é aquela em que a reação dos consumidores ao aumento de preços não envolve uma queda acentuada da demanda, capaz de impedir um lucro total maior, proveniente de menor volume de vendas a preços mais altos. Se, de fato, for possível chegar a uma posição monopolística no mercado e utilizá-la para se obterem preços de monopólio, então se produzirão lucros mais altos do que a média no setor industrial em questão.

            Pode ocorrer que, a despeito desses lucros mais altos, novas empresas do mesmo tipo não entrem em operação por medo de que, após reduzir o preço de monopólio a um preço competitivo, este não se mostre lucrativo.

            Não obstante, deve-se levar em conta a possibilidade de que indústrias correlatas, que estejam em condições de iniciar a produção do artigo cartelizado a um custo relativamente pequeno, possam surgir como concorrentes. De qualquer modo, as indústrias que produzam mercadorias substitutas estarão imediatamente aptas a garantir para si as circunstâncias favoráveis à expansão de sua própria produção. Todos esses fatores em conjunto tornam extremamente rara a possibilidade de surgir um monopólio, numa indústria de transformação, que não esteja no controle monopolístico de determinadas matérias primas. Tais monopólios são possíveis apenas por meio de certas medidas legislativas, tais como patentes e outros privilégios semelhantes, regulamentações tarifárias, leis tributárias, e o sistema de concessão. Há poucas décadas, costumava-se falar do monopólio de transporte. Continua duvidoso, no entanto, até que ponto este monopólio não se baseava no sistema de concessão. Hoje em dia, as pessoas não se incomodam muito com isso. Os automóveis e os aviões tornaram-se perigosos concorrentes das ferrovias. Mas, mesmo antes do surgimento desses concorrentes, a possibilidade de utilização de hidrovias já havia estabelecido um limite definido às tarifas que as ferrovias poderiam aventurar-se a cobrar por seus serviços nas diversas linhas.

            Não se trata só de enorme exagero, mas de incompreensão dos fatos, dizer-se, como hoje se diz, que a formação de monopólios tenha eliminado o pré-requisito essencial da realização do ideal liberal de uma sociedade capitalista. Toda vez que se volta ao problema do monopólio, chega-se sempre ao fato de que somente são possíveis preços de monopólio onde haja o controle de recursos naturais de determinado tipo ou onde decretos legislativos e sua administração criem as condições necessárias para sua formação. No livre desenvolvimento da economia, com a exceção da mineração e de setores correlatos de produção, não há a tendência à exclusão da concorrência. De modo algum se justifica mais a objeção comumente levantada contra o liberalismo que dá conta de que não mais prevalecem as condições de concorrência, tais como existiam à época em que se desenvolveram a economia clássica e as idéias liberais. Umas poucas exigências liberais (isto é, livre comércio entre as nações e dentro delas) precisam ser cumpridas para que se restabeleçam tais condições.

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Bom, espero que tenham gostado do texto.