Onde andará Dulce Veiga? Quinta-feira, Jan 24 2008 

Um rosto, repetições de cenas com entradas diferentes, um sonhador. Cada segundo é uma escolha a como reagir diante da realidade e, por trás de tudo, uma obsessão. Alguma coisa dizia no peito do rapaz que sua musa, Dulce Veiga, ainda estaria brilhando por aí. Ao menos era assim em sua mente.

Inúmeras visões, cortes e cenas misturadas. Relato fragmentado e “mixado” aos sonhos do personagem principal. Tudo isso com uma boa dose de “pop art” no estilo cinema “pós-moderno” se assim posso me referir com a condescendência do diretor.

Bom, acabei de ver este filme na Semana de Cinema de Tiradentes, pequena cidade histórica no interior de Minas Gerais. Posso dizer que foi um dos melhores filmes da amostra. Quem quiser exercitar o pensamento dedutivo e o espírito investigativo e não tiver preconceitos contra esses filmes mais modernos e relativistas que quebram até mesmo o ritmo da narrativa tradicional, pode procurar. Onde andará Dulce Veiga, acho que é esse o nome… De qualquer forma, apesar da narrativa e das imagens terem um caráter provocativo e “revolucionário”, o filme termina no clássico final feliz. Assim não perde seu caráter de entretenimento e cumpre o papel de obra prima da sétima arte no Brasil.

É isso.

Amor e razão, os dois pilares do real Quinta-feira, Jan 24 2008 

Um texto do Papa Bento XVI pra todos saborearem…

Extraído da Palestra Verdades do cristianismo?, proferida pelo cardeal Joseph Ratzinger, no dia 27 de novembro 1999, na Universidade da Sorbone em Paris, publicada em italiano pela revista Il Regno-Documenti, vol. XLV (2000), n. 854, pp. 190-195. 

A separação operada pelo pensamento cristão entre metafísica e física vem sendo progressivamente abandonada: tudo precisa voltar a ser “física”. A teoria da evolução vai se delineando como a via para finalmente provocar o desaparecimento da metafísica e tornar supérflua a “hipótese de Deus” (Laplace), formulando uma explicação estritamente “científica” do mundo. Uma teoria da evolução que queira explicar toda a realidade torna-se uma espécie de “filosofia primeira”, que, por assim dizer, representa o verdadeiro fundamento da compreensão racional do mundo. Qualquer tentativa de colocar em ação causas diferentes daquelas elaboradas por tal teoria “positiva”, qualquer tentativa de “metafísica”, é tachada como um retrocesso para uma era anterior ao iluminismo, como renúncia à aspiração universal da ciência. Portanto, a idéia cristã de Deus deve ser considerada não-científica. A ela não corresponde mais nenhuma theologia physica: em tal visão, a única theologia naturalis é a teoria da evolução; e esta, justamente, não conhece nenhum Deus, nenhum criador, no sentido dado ao termo pelo cristianismo (pelo judaísmo e pelo islã), nem uma alma do mundo e nem mesmo uma força propulsora ou dynamis, no sentido da “stoa” [escola estóica]. No entanto, no sentido do budismo poder-se-ia considerar todo este nosso mundo como uma aparência, e o nada seria a verdadeira realidade; nesse sentido, justificam-se formas místicas de religião, que pelo menos não competem diretamente com o iluminismo (ou seja, com a razão).
Com isso, está dita a última palavra? A razão e o cristianismo estão definitivamente separados entre si?
De qualquer modo, não há como fugir da discussão sobre o alcance da teoria da evolução como filosofia primeira e sobre a exclusividade do método positivo como a única modalidade da ciência e da racionalidade. Essa discussão deve ser empreendida por ambas as partes de modo sereno e com disposição para o diálogo, o que até agora tem sido muito difícil.

Ninguém pode seriamente colocar em dúvida as provas científicas em relação aos processos microevolutivos. Reinhard Junker e Siegfried Scherer, em seu “manual crítico” sobre a evolução, dizem: “Tais processos (processos microevolutivos) tornaram-se bem conhecidos a partir dos processos de variação e de formação naturais. O exame deles mediante a biologia da evolução permitiu a aquisição de importantes conhecimentos sobre a genial capacidade de adaptação dos sistemas vitais”. Eles afirmam, conseqüentemente, que o estudo das origens pode ser bem definido como a disciplina principal da biologia. Portanto, a pergunta que um crente faria à razão [evolutiva] não se refere a isso, mas à sua pretensão de se tornar philosophia universalis, explicação global do real, e assim rejeitando qualquer outro nível de pensamento. No seio mesmo da teoria da evolução o problema aparece quando da passagem da micro para a macroevolução. Sobre isso, porém, Szathmáry e Maynard Smith – ambos convictos defensores de uma teoria globalizante da evolução – declaram: “Não há nenhum motivo teórico para se presumir que as linhas evolutivas, com o tempo, aumentem de complexidade; não há nenhuma prova empírica de que isso ocorra”.

A questão que devemos levantar vai mais fundo: o problema é se a teoria da evolução pode se apresentar como teoria universal de todo o real, além da qual não são mais admissíveis e nem mesmo necessárias ulteriores perguntas sobre a origem e sobre a natureza das coisas; ou se tais questões últimas não podem ultrapassar o âmbito do que é possível investigar só com as ciências naturais.
Gostaria de colocar a pergunta de uma forma ainda mais direta. Será que já se disse tudo com um tipo de resposta como aquela que encontramos, por exemplo, na seguinte formulação de Popper: “A vida, tal como a conhecemos, é constituída por corpos físicos (ou melhor, por processos e estruturas) que resolvem os problemas. As diversas espécies  aprenderam isso através da seleção natural, isto é, através do método da reprodução mais variação; um método que, por sua vez, foi aprendido com o mesmo método. Isso é um regresso, mas não é infinito…”? Não acredito.

Em última análise, trata-se de uma alternativa que não pode ser resolvida só naturalisticamente e nem mesmo filosoficamente. Trata-se da questão se a razão ou o racional surgiu por acaso e por necessidade (ou, com Popper, que se reporta a Butler, por luck e cunning – o acaso fortuito e a previsão), portanto do irracional, se a razão é um subproduto casual do irracional finalmente irrelevante no oceano do irracional, ou se continua sendo verdade a convicção basilar da fé cristã e de sua filosofia: In principio erat Verbum – na origem de todas as coisas está a força criadora da razão.

A fé cristã é, hoje, tal como no passado, a opção pela prioridade da razão e do racional. Tal questão última não pode mais – como dissemos – ser decidida com argumentos derivados das ciências naturais, e até mesmo o pensamento filosófico bate-se, aí, contra os próprios limites. Nesse sentido, não há uma demonstrabilidade última da opção cristã fundamental. Mas a razão poderia verdadeiramente renunciar à prioridade do racional sobre o irracional, à prioridade do Logos, sem se auto-anular?

O modelo de explicação apresentado por Popper, que com variações diversas retorna à apresentação da “filosofia primeira”, demonstra que a razão não pode deixar de pensar também o irracional segundo a sua medida, portanto racionalmente (resolver problemas, aprender métodos), restabelecendo desse modo, implicitamente, o primado da razão, que acabara de ser negado.
Mediante a sua opção pelo primado da razão, o cristianismo continua sendo, ainda hoje, “iluminismo”. Eu penso que um iluminismo que cancele essa opção, contra todas as aparências, não representa uma evolução, mas uma involução do iluminismo.

Vimos que na concepção do cristianismo primitivo os conceitos de natureza, homem, Deus, ethos e religião estavam indissoluvelmente ligados entre si e que justamente essa imbricação contribuiu para a racionalidade do cristianismo na crise dos deuses e na crise da antiga racionalidade. A orientação da religião para uma visão racional da realidade em geral, o ethos como parte dessa visão e a sua concreta aplicação sob o primado do amor combinavam-se perfeitamente. O primado do Logos e o primado do amor mostraram-se idênticos. O Logos não apareceu só como razão matemática na base de todas as coisas, mas como amor criativo até o ponto de se tornar compaixão com a criatura. O aspecto cósmico da religião, que adora o Criador na força do ser, e o seu aspecto existencial, a exigência de redenção, confluíram e se tornaram um unicum.

De fato, qualquer explicação da realidade que não seja capaz de fundar significativa e racionalmente um ethos permanecerá insuficiente. Ora, a teoria da evolução, lá onde se arroga o status de philosophia universalis, procura fundar de novo evolucionisticamente também o ethos. Mas esse ethos evolucionista, que reencontra inevitavelmente o seu conceito-chave no modelo da seleção, portanto na luta pela sobrevivência, na vitória do mais forte, na adaptação bem-sucedida, tem a oferecer algo muito pouco consolador. Mesmo quando procura melhorá-lo de vários modos, continua sendo, em definitivo, um ethos impiedoso. A tentativa de instilar o racional em algo que é irracional em si fracassa aí de modo evidente.
Para uma ética da paz universal, do amor efetivo ao próximo, da necessária superação do particular, de que temos necessidade, tudo isso tem pouca serventia. Nessa crise da humanidade, a tentativa de dar novamente um sentido racional à idéia do cristianismo como religião verdadeira deve, por assim dizer, apoiar-se em igual medida na ortopráxis e na ortodoxia. Seu conteúdo, hoje, tal como no passado, deve consistir essencialmente no fato de que o amor e a razão, como dois verdadeiros pilares do real, confluem mutuamente: a verdadeira razão é o amor, e o amor é a verdadeira razão. Em sua unidade, eles constituem o verdadeiro fundamento e o objetivo de todo o real.

(retirado do núcleo fé e razão da PUC/RJ)

Ainda os cartões do governo Quinta-feira, Jan 24 2008 

Após colocar a notícia da gastança com os cartões do governo neste blog, recebi um comentário de alguém que está pesquisando sobre isso a partir de dados da Corregedoria Geral da União. Deixarei o link aqui pra quem quiser ir mais a fundo nesse negócio:

http://www.cartoesdogoverno.info/06 

Fiquem à vontade pra reler a notícia sobre os cartões aqui:

http://natavolaredonda.wordpress.com

De culpas e candidatos Quarta-feira, Jan 23 2008 

(Retirado da Folha de São Paulo)

A ministra e presidenciável Dilma Rousseff volta hoje à cena política pilotando o (melhor possível) balanço do PAC

 

BRASÍLIA – A ministra e presidenciável Dilma Rousseff volta hoje à cena política pilotando o (melhor possível) balanço do PAC. Corre o risco de ser bombardeada, na cerimônia no Planalto, com perguntas desagradáveis não apenas sobre o próprio PAC mas sobre os riscos de um novo apagão. A Aneel (agência do setor) diz que não é impossível. O novo ministro, Edison Lobão, já fala em “racionalizar o consumo”. E o mais importante foi a “deixa” de Lula ontem: no fundo, o importante é se prevenir, ou seja, já ir arrumando culpados. Como sempre, aliás.
Se tiver apagão, crise internacional, estouro das Bolsas, culpem-se o Bush, o Saddam Hussein e principalmente o Fernando Henrique Cardoso e a “herança maldita”.
A contrapartida, porém, não vale. Se não tiver apagão, se a recessão americana não for tão braba, se as Bolsas pararem de cair, não haverá nenhuma divisão dos louros. Muito menos com o governo anterior. Se vier crise, malhação do Malan. Se o Brasil resistir bem, ninguém vai se lembrar dele.
Só não dá para esconder o sol com a peneira no caso dos presidenciáveis de Lula. Dilma na berlinda por causa das dúvidas no fornecimento de energia -área, afinal, que lhe deu o carimbo de boa executiva. José Temporão aflito por causa da febre amarela, num dia mandando vacinar, no outro dizendo para não vacinar, no terceiro culpando a vítima por não ter se vacinado e, no quarto, acusando a imprensa pelos erros de vacinação da rede pública.
E, enfim, Fernando Haddad impedido de discursar num evento, sob vaias do esquerdista PSTU. Lula tem enorme popularidade, investimentos sociais e uma imensa estrela, mas, com esses candidatos (e quais seriam os outros?), vai precisar bem mais do que isso para fazer o sucessor. Principalmente porque há controvérsias quanto à força da transferência de voto, seja dele, seja de qualquer um. (De eliane: elianec@uol.com.br)

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