1968: UMA GIGANTESCA REVOLUÇÃO LIBERAL!
Retirado do ex-blog de Cesar Maia(prefeito do Rio de Janeiro).
1. De Gaulle percebeu que muito mais que um movimento revolucionário,
que pouco tinha de esquerda, o maio de 1968 era uma gigantesca revolução
liberal. Chamou eleições a fins de 1968 e venceu. Mas por uma margem
estreita que não lhe dava condições de desdobrar seu estilo vertical de
governo. Renunciou em 1969, e retornou a Colombey-les-Deux-Eglises, seu
refugio de sempre.

2. A coincidência de 1968, com Vietnam e outros movimentos armados
revolucionários inspirados por Guevara, Mao, Giap ou Malcom X, levou muitos
analistas desatentos, à confusão. Os próprios estudantes
“revolucionários” na França e na Alemanha se pensavam assim. Na verdade encarnavam
muito mais o final de um ciclo no que pensavam, e o inicio de outro, no
que faziam e diziam. Era o final de um longo ciclo conservador -pela
direita ou pela esquerda- e o inicio de um ciclo liberal com intensidade
nunca vista antes em nenhum país central.

3. A palavra de ordem -É Proibido, Proibir- era de caráter anarquista,
e nesse sentido radicalmente liberal. O que 1968 trouxe foi a
exponenciação do individualismo, a ruptura com a tradição, a idéia que tudo
começa a cada momento, a reação à guerra fria e aos sistemas de um e outro
lado, a negação dos padrões e das aparências, o direito individual de
cada um empreender o que quisesse, e como quisesse a cultura
hippie-liberal.

4. A década seguinte viu os desdobramentos dessa revolução
hiper-liberal nas idéias e costumes, transportar-se para a política e para a
economia. A base sócio-político, anterior, sindical ou estudantil, a partir
dos valores conservadores -pela esquerda soviética, principalmente- não
oferecia condições para reformas liberais intensas. Depois de 1968 a
esquerda se estilhaça em tendências de todos os tipos, e a idéia que um
grupo de bravos poderia desintegrar os alicerces dos regimes, a partir
de focos, idéia de inspiração anarquista, desmonta progressivamente a
capacidade de reação das massas na forma anterior.

5. A vanguarda -principalmente juvenil- era liberal e não sabia,
alicerçada num individualismo exacerbado. A partir daí abrem-se as condições
para a ascensão do liberalismo político e econômico. O Estado
questionado e apedrejado em 1968, não podia continuar sendo o mesmo.

6. Desmorona-se o franquismo na Espanha a partir de 76 e ascende a
primeira chama liberal com Adolfo Soares, que vai redundar no longo governo
liberal do socialista Felipe González a partir de 1982. Mitterrand
assume a presidência da França em 1981, e muda como González. Ascende
Helmut Kohl na Alemanha em 1982 e aponta na mesma direção de Thatcher.
Ascende Ronald Reagan em 1981. E principalmente, ascende Margareth Thatcher
na Grã-Bretanha em 1979. Em seguida -1985- Gorbachev na URSS.

7. Thatcher e Reagan articulam-se em torno de reformas liberais
profundas em relação ao Estado e a economia, impensáveis com a base de
resistência social e política, anterior a 1968. A resistência à Thatcher é a
dos velhos sindicatos, e assim mesmo setorialmente -mineiros,
gráficos… E no final, mudam também os trabalhistas britânicos com a ascensão do
liberal Tony Blair em 1994 e a mudança do programa do Labor.

8. Paradoxalmente 1968 abre os espaços ideológicos, filosóficos e
políticos às reformas liberais, intensas como nunca.

9. Esse ciclo aberto em 1968 começa a declinar no inicio dos anos 2000.
Abre-se um novo ciclo conservador, nos valores, nos vetores e
conflitos nacionais, na visão de Estado… O final de ciclo é percebido com
clareza na eleição de Sarkozy que afirma de diversas maneiras em vários
discursos e entrevistas que 1968 finalmente acabou. Está acabando pela
Europa toda. Quarenta anos depois!